O verbo “entreter” possui conjugação capciosa. Tanto é verdade que é possível ouvir flexões curiosas – “ele /entérte/”, “ele vai /entertê/”, “ele havia /entertido/” –, principalmente, é claro, na voz daquele falante com pouca instrução...e simpática simplicidade.
Já faz um bom tempo que cheguei a São Paulo, vindo de Guaxupé, em Minas Gerais. Lá vivi até meus 17 anos e testemunhei, não poucas vezes, as “divertidas” flexões.
A propósito, vem-me à mente a fala de um simpático sorveteiro – um daqueles que anda a cidade toda, empurrando um carrinho e anunciando com buzina que está ali –, de quem comprávamos, quando crianças, os inesquecíveis “sorvetes de saquinho”. O homem vociferava, indicando o produto maior do que o outro:
- Leve este, menino! Ele “enterte” mais...
Obviamente, não me valho do presente artigo para apontar, com o indicador, o “erro” de conjugação verbal daquele falante, de origem simples e limitada instrução. À luz do padrão culto da língua, há um problema, sim, na flexão verbal por ele utilizada. Todavia, se atentarmos para os fatores múltiplos que demarcam o plano da comunicação – grau de instrução do falante, coloquialidade do discurso, objetivo da mensagem, entre outros –, poderemos até defender a ausência de “erro” naquela fala. Os linguistas me apoiam – creio.
Posso dizer, assim, que aquele simpático sorveteiro, que ainda permanece em minha memória, com seu legítimo “mineirês”, inspirou-me a falar sobre a conjugação do verbo ENTRETER. É o motivo deste artigo. Passemos, então, à análise do fato.
De início, é necessário destacar que o verbo ENTRETER possui a acepção de “distrair, ter por ocupação”. Exemplo: “O homem poderia entreter a criança com o sorvete”. Nota-se que sua transitividade é dupla, podendo apresentar-se como verbo transitivo direto ou como verbo bitransitivo. Veja:
O palhaço entreteve a criança (verbo transitivo direto);
O palhaço entretinha as crianças com brincadeiras (verbo transitivo direto e indireto).
Em tempo, é importante lembrar que o verbo pode ser pronominal:
O palhaço entreteve-se com a plateia naquele circo.
Eu me entretenho com música popular brasileira.
Passemos, agora, aos problemas de flexão verbal. Não percamos de vista, todavia, que este verbo deve ser conjugado como o verbo “ter”, do qual deriva.
Já no presente do indicativo, o verbo começa a mostrar suas “garras”. Se falamos “eu tenho”, falaremos “eu entretenho”. Da mesma forma, se dizemos “ele tém”, diremos “ele entretém”. Dessa constatação inicial, desponta que não se deve falar “ele /entérte/”, mas “ele entretém”. Aliás, o saudoso sorveteiro da infância, se quisesse se valer do português culto, poderia dizer:
- Leve este, menino! Ele ENTRETÉM mais...
Cá pra nós: do jeito que criança é, desconfiada e arredia, é bem provável que deixasse de comprar aquele sorvete maior... Ficaria inibida com um verbo tão diferente e erudito...O tiro sairia pela culatra! Por isso, insistimos que, se houve “erro”, este se deu apenas na perspectiva imposta pelo português de rigor, na esteira do padrão culto da linguagem. Quando analisamos o plano comunicacional, em uma abrangência superior, não veremos erro na fala. São os mistérios e ensinamentos da oralidade despretensiosa...
Bem, voltando à flexão verbal. No pretérito perfeito do indicativo, teremos algumas formas importantes, que se estendem a seus derivados (mais-que-perfeito, imperfeito do subjuntivo e futuro do subjuntivo):
Eu tive
Ele teve
Nós tivemos
Eles tiveram
Eu entretive
Ele entreteve
Nós entretivemos
Eles entretiveram
Memorize: não existe a forma “entreteu”! Diremos, sim, que “algo entreteve”.
Recomenda-se, também, prestar atenção às flexões no futuro do presente do indicativo, que se estendem ao futuro do pretérito, pretérito imperfeito e infinitivo pessoal, além do gerúndio e do particípio. Observe as frases:
O palhaço entreterá as crianças no circo.
As brincadeiras do palhaço entreterão as crianças.
Por fim, o modo subjuntivo apresenta ao estudioso os “desafios” de sempre. Aprendamos algumas formas, por comparação:
No presente do subjuntivo:
(Que) eu tenha - (Que) eu entretenha
(Que) nós tenhamos - (Que) nós entretenhamos
(Que) eles tenham - (Que) eles entretenham
Escreveremos, portanto:
Espero que nós nos entretenhamos com as brincadeiras do palhaço.
No pretérito imperfeito do subjuntivo:
(Se) eu tivesse - (Se) eu entretivesse
(Se) nós tivéssemos - (Se) nós entretivéssemos
(Se) eles tivessem - (Se) eles entretivessem
Escreveremos, portanto:
Se nós nos entretivéssemos no circo, iríamos mais vezes.
No futuro do subjuntivo:
(Quando) eu tiver - (Quando) eu entretiver
(Quando) nós tivermos - (Quando) nós entretivermos
(Quando) eles tiverem - (Quando) eles entretiverem
Escreveremos, portanto:
Quando os palhaços entretiverem as crianças, todas verão como é bom sorrir.
Assim, pudemos percorrer, nos tópicos em epígrafe, as principais “encruzilhadas” que este verbo apresenta. E tudo porque uma agradável lembrança da infância veio à tona...e nos entreteve neste artigo. Um gramatical entretenimento...
Aliás, seria tão bom ouvir novamente aquele buzina do homem do sorvete, oferecendo o produto “que /entérte/”, “que vai /entertê/ mais”... Seria uma ótima oportunidade de lhe dizer que aquela espontânea flexão verbal, por ele utilizada, não existe, mas que seu sorvete era inesquecível! Tão inesquecível que sua fala me levou a aprender, com o tempo – e no português de rigor –, que são melhores as formas “ele entretém”, “ele vai entreter”, “ele havia entretido”.
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