Estamos em época de eleições. Como devemos votar: no Presidente ou para Presidente?
Aquele que vota, ao dar o seu voto, a favor ou contra, vota em alguém, e não "para" alguém. Portanto, você vota em uma pessoa; o candidato tal pode votar nele mesmo ou em alguém, se lhe aprouver, e não "para" alguém. Note as frases corretas:
O brasileiro votou no candidato mais bem preparado.
Aquele que não votar em mim, de mim não escapará.
Em quem mesmo votei?
O tema traz à tona a cômica história de um candidato que virou motivo de piada nas eleições. Ele não teve nenhum voto, o que motivou uma Rádio a anunciar em seu programa: "Poxa, nem a mulher dele votou nele!". Quando questionado por repórteres, o tal candidato respondeu:
"A minha mulher eu não garanto. Mas a minha mãe, eu sei que votou em mim." E complementou: "Eu também votei em mim".
O episódio é hilário e comporta correção gramatical: as frases emitidas pelo desafortunado candidato "sem-voto" estão em consonância com a regra - o verbo "votar" requer a preposição "em", sendo nessa acepção transitivo indireto. Assim, houve por bem o anunciante ao justificar que "...a minha mãe, eu sei que votou em mim." e "... também votei em mim".
Entretanto, é possível a utilização da preposição "para" com o verbo ora analisado, quando se fizer referência a "cargo". É que no Brasil passou a ser comum a construção "votar para Presidente", na acepção de "ter a oportunidade de escolher". Exemplo:
Ela votou para Deputado.
Nós votamos para Senador.
Todos votaram para Prefeito.
Em Portugal, diferentemente, usa-se a preposição "por": "votar por Deputado, por Senador, por Prefeito etc.
Retomando a pergunta que intitula o presente artigo - "Como devo votar: no Presidente ou para Presidente?" -, seria possível concluir: pode-se falar "votei no Presidente", caso se faça menção à sua pessoa; por outro lado, será possível dizer "votei para Presidente", se o intuito for se referir ao cargo eletivo em disputa.
Superada a questão apresentada, a título de curiosidade, perguntar-se-ia: qual o feminino de "presidente"?
Não faz muito tempo, a pediatra Verónica Michelle Bachelet venceu as eleições presidenciais no Chile. Na Libéria, a história se repetiu: Ellen Johnson Sirleaf tomou posse na presidência, como a primeira mulher eleita chefe de estado de um país africano. E, no Brasil, a senadora Heloísa Helena disputou as eleições de 2006... Temos, também, a ex-ministra Dilma Rousseff participando do pleito atual e, de acordo com as mais recentes pesquisas eleitorais, com chances de se tornar a primeira mulher a vencer as eleições para presidente do Brasil. Se as mulheres estão disputando - e até ocupando - a eminente função política de chefe de estado, é necessário fulminar a dúvida: "a Presidente" ou "a Presidenta"?
A forma feminina "presidenta" é dicionarizada e vernácula, embora tenha curso limitado no idioma. Muitos a defendem. Desde gramáticos do quilate de Evanildo Bechara, Celso Cunha, Domingos Paschoal Cegalla e Rocha Lima, até dicionaristas de prol, como Houaiss e Aurélio, tendo todos a chancela do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), que também abona a forma. Aliás, de acordo com a Lei Federal nº 2.749/56, o emprego oficial de nome designativo de cargo público deve, quanto ao gênero, atender ao sexo do funcionário a quem se refira, e não ficar sempre no masculino, apegado a um provável machismo anacrônico.
Não obstante, a palavra "presidente" continua a ser registrada, no VOLP e nos dicionários, como vocábulo de dois gêneros (substantivo comum-de-dois), ou seja, pode-se dizer, sem medo de equívoco, "o presidente" e "a presidente". Assim, à guisa de conclusão, ficaremos com as duas formas possíveis: a presidenta ou a presidente. Dilma Rousseff foi a primeira mulher que preferiu ser chamada de presidenta.
Não há dúvida que o direito de escolha, assim exercitado, em sua dimensão política e "linguística", permitirá ao eleitor votar bem...e com gramaticalidade!
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