É muito comum, na formação de períodos sintáticos, o uso inadequado do termo “onde”. Costumo dizer que “se coloca ‘o onde’ ‘onde’ não se deve...”. Daí a utilização das palavras em trocadilho, no título deste artigo (Onde o “onde” é incorreto...), que, à primeira vista, pode não soar tão bem, entretanto serve intencionalmente para chamar a atenção do leitor a um problema crônico na sintaxe.
Como classe morfológica, “onde” pode ser um advérbio interrogativo (“Onde está o homem?”) e pronome relativo (“Esta é a cidade onde nasci.”) – o que nos interessa diretamente neste artigo –, equivalente a “em que, no qual, na qual, nos quais, nas quais” (“Esta é a cidade EM QUE / NA QUAL nasci.”). O pronome relativo retoma um termo expresso anteriormente (antecedente) e introduz uma oração subordinada adjetiva, restritiva ou explicativa. Assim, na análise sintática, o termo “onde” será identificado como um “adjunto adverbial de lugar”. A propósito, deve referir-se sempre a lugar físico, espacial ou geográfico, ainda que virtual ou figurativo, sendo inadequado seu uso quando atrelado a situações diversas. Os exemplos são esclarecedores:
1. A estrada onde ocorreu o acidente.
2. O prédio onde ele trabalha.
Nas duas frases acima, nota-se que o pronome se liga a referentes que designam um lugar determinado, a saber, “a estrada” e “o prédio”. Nessa medida, houve adequação na construção dos períodos, que poderiam ser também escritos:
1. A estrada EM QUE / NA QUAL ocorreu o acidente.
2. O prédio EM QUE / NO QUAL ele trabalha.
Como recurso mnemônico, pode-se “tirar a prova” do bom uso em dois passos simples: 1º. Substitua o pronome pela expressão “o lugar em que”; e 2º. Elimine o elemento antecedente. Exemplo:
Situação: A estrada onde ocorreu o acidente.
1º. A estrada [O LUGAR EM QUE] ocorreu o acidente.
2º. A estrada [O LUGAR EM QUE] ocorreu o acidente.
Resultado: O lugar em que ocorreu o acidente.
Gonçalves Dias, na clássica “Canção do Exílio”, deixou-nos a lição no verso “Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá”. É fácil perceber que as palmeiras indicam o lugar em que o sabiá vai fazer a sua cantoria.
Por outro lado, existe um costume condenável de se usar a forma “onde” em excesso nos textos escritos. Costumamos denominar o fenômeno de “ondismo”, no qual se associa o pronome a situações que não indicam valor circunstancial de lugar. Observe as situações abaixo, em que o erro se torna patente:
1. Nos autos, foram colhidos depoimentos onde ficou evidente a culpa do réu.
Ora, o referente “depoimentos” indica um domínio não geográfico. A frase deve ser assim corrigida:
Nos autos, foram colhidos depoimentos EM QUE / NOS QUAIS ficou evidente a culpa do réu.
Daí se dizer que “onde” sempre equivalerá a “EM QUE”, mas a recíproca pode ser falsa, motivo por que se têm construído, a torto e a direito, muitos períodos de forma errônea. Observe mais exemplos de incorreção:
2. O candidato prestou o concurso onde questões de provas foram anuladas.
Correção: O candidato prestou o concurso EM QUE / NO QUAL questões de provas foram anuladas.
3. Esta é a família onde há violência doméstica.
Correção: Esta é a família EM QUE / NA QUAL há violência doméstica.
Da mesma forma, tem sido muito comum o errôneo emprego de “onde” como antecedente de “tempo”. Observe o problema:
1. Este é o ano onde tudo melhorará.
O antecedente “ano” designa uma referência temporal, devendo afastar o pronome “onde”. Substitua-o, assim:
Este é o ano EM QUE / NO QUAL / QUANDO tudo melhorará.
De modo semelhante, outras frases podem ilustrar a aplicação imprópria do pronome quando os referentes forem temporais:
2. Esta é a época onde as flores nascem.
Correção: Esta é a época EM QUE / NA QUAL as flores nascem.
3. O dia onde a guerra começou.
Correção: O dia EM QUE / NO QUAL a guerra começou.
4. O século onde tudo se explica.
Correção: O século EM QUE / NO QUAL tudo se explica.
Recentemente, a Fundação Getúlio Vargas elaborou importante questão no vestibular para os candidatos pretendentes ao curso de “Administração de Empresas”. No caso, o candidato teve que identificar a inadequação do uso de “onde” na frase “Uma noite onde ninguém é o que parece ser”. Com efeito, o referente “noite” não designa lugar, mas tempo. Assim, poderíamos corrigir a frase por:
“Uma noite EM QUE / NA QUAL ninguém é o que parece ser”.
Por tudo isso, devemos evitar o uso indiscriminado do pronome relativo “onde”. A cautela, aqui, não será algo excessivo, mas imprescindível. Aliás, o cauteloso terá o domínio da boa aplicação do pronome relativo e... a chave dos lugares onde “o onde” é adequado. É só entrar e bem aplicar!
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