A utilização da vírgula é um problema recorrente para o usuário da linguagem escrita. O motivo é simples: quando se utiliza a linguagem oral, procede-se à entoação que apraz, à pausa que convém e à sonoridade que melhor exprime o sentido da fala. Entretanto, quando se transporta a linguagem oral para o texto escrito, faz-se necessário dominar a vírgula, entre outros sinais de pontuação, a fim de transmitir o pensamento sem ambiguidade. Em outras palavras, vale dizer o que sempre anuncio, com certo tom de gracejo, em sala de aula:
“’Virgulamos’ bem, ao falar; ao escrever, não sabemos o que fazer!”.
Entre as várias regras do uso obrigatório da vírgula - um sinal de pontuação que indica a quebra de ligação sintática no interior da frase -, está uma que deixa todos de “cabelo em pé”: a vírgula antes da partícula “e”. Sabe-se que, em princípio, a conjunção “e” rechaça o uso da vírgula. Exemplo:
Comprei maçãs e peras.
Comprei maçãs, peras e abacaxis.
Entretanto, há casos curiosos de vírgula precedendo tal conectivo. Vamos a eles:
1º. Quando o “e” significar “mas”: é possível que encontremos a conjunção aditiva com acepção diversa da que lhe é natural, representando, pois, adversidade. Neste caso, a vírgula será de rigor, pois, como é cediço, virgula-se antes de conectivos adversativos (mas, porém, contudo, todavia, entretanto, no entanto, não obstante etc.). Exemplos:
Todo político promete, e não cumpre.
(Traduzindo: Todo político promete, mas não cumpre.)
Quase morri de tanto estudar, e tirei nota baixa.
(Traduzindo: Quase morri de tanto estudar, mas tirei nota baixa.)
Vamos à próxima regra:
2º. Quando o “e” for repetido intencionalmente: trata-se de importante figura de sintaxe, conhecida por “polissíndeto”, muito usada em textos narrativos e descritivos, mas que deve ser evitada em textos dissertativos, injuntivos e expositivos. Ao usuário, a intenção de ênfase será facilmente detectável. Note os exemplos:
“E suspira, e geme, e sofre, e sua...” (Olavo Bilac)
“Trejeita, e canta, e ri nervosamente.”
(Antônio Tomás)
Observe mais uma possibilidade:
3º. Quando o “e” separar orações formadas por sujeitos distintos: é possível a construção de período composto por orações com sujeitos diversos. Caso se pretenda uni-las com o conectivo aditivo em análise, a vírgula será obrigatória. Exemplos:
Uma mão lava a outra, e a poluição suja ambas.
1ª oração: Uma mão lava a outra (Núcleo do sujeito: mão);
2ª oração: E a poluição suja ambas (Núcleo do sujeito: poluição).
Ou, ainda:
“A mãe se fora para a cozinha, e Rafael olhava pra ele.” (José Lins do Rego)
O desembargador deu voto a nosso favor, e o terceiro juiz pediu vista.
Por fim, a última regra:
4º. Quando o “e” indicar realce: haverá vírgula antes do “e”, quando se quiser dar ênfase à expressão. Exemplos:
Disse, e repito, que hoje é o amanhã de ontem.
“Neguei-o eu, e nego.” (Rui Barbosa)
Comeu bastante, bebeu demais, dormiu em excesso, e partiu.
Após verificadas as possibilidades destacadas, podemos começar a perder o “medo” de virgular. Com o estudo das regras, ficaremos autorizados a usar outra frase, diversa daquela anteriormente anunciada em sala de aula:
“’Virgulamos’ bem, ao falar; ao escrever, não temos nada pra aprender!”.
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