De vez em quando, a notícia se espalha: “pagam-se supersalários aqui”; “recebem-se supersalários acolá”. A palavra, associada àqueles que ocupam os altos escalões do governo, indica privilégios de alguns poucos por aí... E sempre se questiona: quem será que paga a conta?
A resposta dispensa comentários. Pelo menos, para nós, a quem cabe o trabalho – mais prazeroso, diga-se de passo – de verificar um problema de amplitude menor, mas igualmente impactante: a questão da ortografia da palavra. Escreve-se o vocábulo com hífen ou sem? Usam-se dois “esses” (-ss) ou apenas um? O Acordo Ortográfico alterou, por acaso, a escrita da palavra?
Em primeiro lugar, é importante mencionar que o Acordo Ortográfico não alterou a formação de palavras com o prefixo super-. A regra permanece inalterada: haverá o hífen se a palavra posterior iniciar-se por -h ou -r. Na mesma esteira, seguirão os prefixos hiper- e inter-. Por essa velha razão, escrevem-se:
1. Com hífen: super-habilidade, super-homem, super-requintado, super-revista; hiper-hidratação, hiper-reativo, hiper-realista; inter-racial, inter-regional, inter-relação, inter-humano.
2. Sem hífen: superaquecido, superdosagem, superfaturado, superlotado, supermercado, superpopulação, supersônico; hiperativo, hipertensão, hipertrofia, hiperglicemia, hiperinflação, hipertireoidismo, hipersensibilidade, hipertexto; interativo, intercâmbio, intercessão, intermunicipal, internacional, interestadual, interdisciplinar, interlocutor, interdependência, intertextualidade, interface.
Entretanto, uma dúvida se impõe: por qual motivo se escreve “supersalário”, com um -s
(e sem hífen), se devemos escrever, à luz do Acordo Ortográfico, “suprassumo”, com dois “esses”
(e também sem hífen)?
A resposta não é complicada. A regra que leva à hifenização das palavras formadas pelo prefixo supra- não se confunde com aquela revelada acima para o prefixo super-. Todas as palavras formadas com o prefixo supra- receberão o hífen se o elemento posterior iniciar-se por -h ou idêntica vogal. É o que dispõe o Acordo Ortográfico. Exemplos: supra-histórico e supra-atmosférico. Daí a necessidade de se escrever suprassumo sem o hífen.
Agora, quanto à duplicação da consoante -s, o problema é outro: o novo Acordo impõe que se dobre a letra quando o segundo elemento iniciar por -r ou -s, o que ocorre no presente caso (sumo inicia-se por -s). Daí escrevermos, com correção: suprassenso, suprassolar, suprassegmental
(e, da mesma forma: suprarrenal, suprarrealismo, suprarregional).
É relevante mencionar que a regra empregada ao prefixo supra-, acima detalhada, também o será a vários outros prefixos. As palavras em seguida, conquanto esteticamente estranhas, podem bem ilustrar:
1. Proto: protossolar e protorrevolução;
2. Extra: extrassecular e extrarregular;
3. Pseudo: pseudossábio e pseudorreação;
4. Semi: semissintético e semirreta;
5. Infra: infrassom e infrarrenal;
6. Intra: intrassubjetivo e intrarracial;
7. Neo: neossimbolismo e neorrealismo;
8. Ultra: ultrassonografia e ultrarromântico;
9. Contra: contrassenso e contrarregra;
10. Auto: autossuficiente e autorretrato;
11. Ante: antessala e anterrosto;
12. Anti: antissocial e antirracismo;
13. Arqui: arquissacerdote e arquirrival;
14. Sobre: sobressaia e sobrerroda.
Uma vez esclarecida a diferença, vale a pena observarmos outras palavras grafadas com o prefixo super-, cujo segundo elemento se inicia pela consoante -s:
Se grafamos supersalário, iremos grafar: supersábio, supersafra, supersalgado, supersecreto, supersensibilidade, supersensível, supersimples, supersólido, superstição.
Dessa forma, fica claro que grafaremos “supersalário”, sem duplicar o -s e sem colocar um hífen indesejado. Podemos, então, concluir, de modo “supersimples”: o vocábulo “supersalário” se escreve com -v (de vigilância...).
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